quarta-feira, 9 de junho de 2010

Email

Já uma vez escrevi que estava preparado para quase tudo nesta vida, mas não para te encontrar, nem para te perder.
E, sobretudo, nunca poderei estar preparado para te esquecer.
Como poderei? Como poderei deixar que a tua imagem, as marcas que deixaste, o que senti e sinto, se perca num qualquer canto da memória?
Gosto de pensar que um dia, depois de me tornar esquecimento no mundo, continuaremos nesse espaço/tempo contínuo e nos voltaremos a encontrar.
Gosto de pensar que, nesse outro tempo, poderemos caminhar juntos.
E finalmente me salvarás.
Gosto de pensar que esse espaço e tempo são realidade, e que viveremos nessas florestas mágicas, que existiram, existem e existirão.
Porque imagino que, sem elas, sem ti, sem o que representam, este mundo não resistiria.
São elas, a sua magia, os seus sonhos, que mantêm o universo unido e coeso.
Gosto de pensar que vim de longe, onde te conheci, e que, perdendo-te e ganhando-te, cheguei aqui, onde estou. Gosto de pensar que irei para longe, onde te reencontrarei.
Mas hoje, mais do que nunca, sei que não é assim.
São apenas devaneios, desejos, alucinações, que me consomem.
Mais do que nunca, continuo esta caminhada sozinho.
Mais do que nunca, sinto-me completamente estranho no mundo.
A cada dia que passa a minha alma é mais pequena e finita.
Perdida num vendaval de florestas cada vez mais distantes...
Mas, se sei que devo esquecer-te, que não posso obrigar-te a amar-me, porque será que todos os dias te sinto tão presente?

Só eu

Agora sou só eu.
Com esse terrível castigo de saber o que a vida poderia ter sido e não foi, e esse outro de saber que nunca te vou esquecer!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Gostar de ti

Gostar de ti é simples.
Não é nenhum mistério.
Não há destino, segredos nem magia.
És tu, apenas.
E o meu amor a vibrar nas cordas do tempo.
Todos temos de morrer.
Quando chamarem por mim, quero que seja por algo que valha a pena.
Que deixe na minha alma a marca do futuro por nascer.
Que eu receba, de bom grado, o descanso necessário, e ao fechar os olhos veja os teus.
Um sorriso nos lábios, e adeus!

Na altura exacta, será por amor...
Porque não?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Poço

Construí diques e mais diques, barragens e mais barragens, fronteiras e mais fronteiras, plantei pedras pelo chão.
Mas não construí as estradas, os caminhos, as pontes, os barcos.
E tropecei a cada passo.

Sempre mais longe de ti, no fundo deste poço.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ciclos

Repentinamente, o vazio volta a instalar-se no amplo espaço que antes ocupavas.
A sensação estranha de estar cheio de nada.
Tomo consciência do pouco valor que tenho, dos meus vigorosos defeitos e das minhas apáticas e residuais qualidades.
Será que, finalmente, cedeu dentro de mim o orgulho, a vaidade, e saiu olímpica vencedora a dor?
Continuo um estranho que se desloca sem destino, sem ordem, sem vontade.

A ternura, nessa nascente de mãos e lábios, é palácio onde se desenvolve a loucura.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Exorcizo-te-me

Nesta agonia fora de tempo, sonho que possa um dia existir um deus.
Um qualquer.

Porque preciso de te exorcizar, arrancar, extirpar de mim.

Levanto as minhas mãos, sim essas, as mesmas que te tocaram, e tento inventar um ritual de purificação, ou sublimação, que faça desaparecer esta sensação da ponta dos meus dedos.
Invoco a entidade, se é que há uma, para me ajudar nesta tarefa.

Porque preciso de te exorcizar, arrancar, extirpar de mim.

Os meus lábios balbuciam palavras desconexas nesta reza, tentando esquecer o sabor dos teus e como eles roçavam levemente pelos meus, determinando o desejo insaciável de ti.

Porque preciso de te exorcizar, arrancar, extirpar de mim.

Sei que estás tão mesclada, interligada, numa simbiose de proporções cósmicas, que poderá ser fatal este exorcismo.
Mas necessário.

Porque preciso de te exorcizar, arrancar, extirpar de mim.

Exorcizo-te de mim
Exorcizo-me de ti
Exorcizo-te-me
Ajoelho-me...
Cedo...
Revolto-me...
Mas continuas...
Que eu não saiba não sentir...
Que mistério é este que mexe com o mais profundo da fonte das águas?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

"vem me buscar"

Sem dar por isso, as imagens e os sons foram passando por mim, formando as horas e os dias.
A vida passou ao meu lado, ou talvez tenha sido eu a passar cego ao lado da vida.
Nalgum ponto terei errado.
Como é que cheguei até aqui?
Quando é que vou partir?
"vem-me buscar"
Não sei ir sozinho.


Straight to number one



Rodeando as árvores

Sim, é por isso que estou aqui, a tua ausência a pesar toneladas nos meus dedos, esmagando as letras e palavras, sangrando pelos meus olhos até se fecharem e ficar adormecido.
Somos quase-conhecidos-estranhos que temem falar.
A morte dos sentidos deve ser assim, silenciosa, como o som da elfa rodeando as árvores.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Se ao menos soubesse cantar-te

É assim que eu me lembro.
Não quer dizer, necessariamente, que a minha memória seja exacta e fiel em todos os pormenores. Não posso garanti-lo, nem jurar que assim seja.
Na verdade, é bem mais certo que o enevoado e emaranhado de pensamentos se tivessem tornado na manta felpuda e quente onde, confortavelmente, aconchego as minhas imprecisas recordações.
O tempo e a idade não ajudam, decerto, à fiabilidade das memórias.
Não é que esteja especialmente preocupado ou aborrecido por ser assim.
São essas as minhas lembranças, e que se lixe quem vier dizer que foi diferente.
Se há coisas a que posso chamar minhas, são essas. As memórias. Mesmo quando quem dança nelas esteja agora virada para outros palcos e outras músicas.
Poderia servir-me de consolo, de paliativo, o facto de saber que, talvez, os bons momentos não tenham sido tão bons como recordo, e os maus, tão maus como senti. Mas, com a relatividade da nossa condição humana, e da nossa razão, também posso, igualmente, pensar que a moderação do tempo faz crer que foi apenas bom aquilo que foi extraordinário... e, assim, o efeito é o contrário.
De qualquer forma, a ternura com que te penso continua a dar-me a certeza absoluta de ti.
Passamos a vida fechar portas, algumas com correntes e cadeados de ferro fundido em desencanto e forjado em lágrimas por um qualquer serralheiro maquiavélico, mas tentamos deixar sempre aberta aquela por onde fugimos e nos perdemos, onde nos espojamos e ronronamos de felicidade adiada.
Hoje, resta-me o sol para aquecer a minha pele quando, no que me lembro, era a tua que me aquecia.

Se ao menos soubesse cantar-te e trazer-te de volta em mim, livre, na melodia…